MATERNIDADE SEDUTORA – Sequestrando a individualidade de seu filho.

Triste destino teria o homem que não conseguisse escapar da sedução de um útero materno capaz de mantê-lo preso ao seu amor narcisista. Este é o destino de muitos filhos (homens e mulheres) que se veem presos nas artimanhas de um vínculo simbiótico que lhes dificulta a expansão de suas capacidades. Mães possessivas, controladoras, se mostram incapazes de romper esta dinâmica psicológica. Ambos, mãe e filho, sentem-se inseguros e desprovidos de uma base de sustentação psicológica que os levariam ao reconhecimento do seu verdadeiro EU (sua identidade).
Uma vez ouvi de uma psicoterapeuta de família que dissertava sobre o vínculo mãe-filho: “Ah, se todo homem soubesse o poder que tem um útero materno..!” Em psicanálise o diagnóstico que diferencia um funcionamento psicótico de um funcionamento neurótico se fundamenta nesta relação e na capacidade (ou não) da mãe em reconhecer seu filho separadamente de si mesma. E isto significa reconhecer a sua individualidade, permitindo seu crescimento, sua evolução.
A ruptura da simbiose se dá quando a mãe “concede permissão”. Esta permissão inclui o “terceiro elemento”: o pai. A “permissão”, por meio da inclusão da figura paterna, faz com que ela delegue ao pai a função da socialização, ou seja, apresentar o “mundo” ao seu filho, colaborando para que ele ocupe o seu lugar na sociedade. Caso contrário, na “simbiose prolongada”, o filho sofrerá as consequências de um amor castrador. Nesta dinâmica, as aquisições pertencentes ao desenvolvimento infantil podem ser adiadas, postergadas, resultado do comprometimento do processo de separação-individuação. Para que o pai exerça a função que lhe pertence, ajudar mãe e filho a romperem a simbiose, a mãe precisa permitir. Em outras palavras, o pai auxilia a “cortar o cordão umbilical” que prende um ao outro numa relação de dependência. Esta tarefa libera o filho para o aprendizado que ele precisa realizar em busca de sua individuação.
Mulheres que mantém casamentos disfuncionais fazem questão de permanecerem “aliançadas” ao filho para se “protegerem” de suas próprias frustrações conjugais. Assim, o filho, mesmo na fase adulta, pode se manter a serviço das necessidades psicológicas de seus pais, ajudando a alimentar a fantasia de uma sociedade afetiva através das representações sociais.
Mães excessivamente repressoras, controladoras, punitivas e consequentemente manipuladoras, mantém seus filhos dependentes e imaturos. Preferem se esconder atrás da capa de um super-herói (filho) fracassado, que elas mesmas ajudaram em sua derrocada por tentarem construir com uma mão aquilo que destruíram com a outra. Qualquer educação que se mostre extremista – tanto na permissividade quanto no controle exagerado (repressão) – revela que as relações familiares adoeceram. Manter filhos nesta posição e nesta condição de dependência significa se defender de suas próprias dificuldades ou de sua própria falência afetiva.
Quanto mais identificado o filho estiver com esta figura materna ou com a relação disfuncional de seus pais, maior será o prejuízo em sua vida afetiva e emocional. É comum, por exemplo, encontrarmos pacientes nesta posição com sérias dificuldades de identidade, incluindo a identidade sexual. Sua identidade sexual pode permanecer confusa devido à identificação com esta disfunção.
Existem relatos de práticas homoafetivas por pacientes que ainda se veem presos – inconscientemente – à armadilha de um útero materno castrador.
Algumas pessoas, nestas condições, podem manifestar uma sexualidade reprimida e um “afeto embotado”. Algumas fantasias homossexuais, ou mecanismos de repressão, revelam o desejo inconsciente da pessoa introjetar esta “mãe” por meio de outras figuras representativas, com o objetivo de preencher a lacuna ou o vazio que experimentaram. Um exemplo clássico são algumas escolhas conjugais. Elas procuram no seu cônjuge uma função materna ou paterna utilizando-se do amor possessivo, controlador e doentio, que prende e limita o outro nesta condição, onde há a reprodução de um padrão mental e comportamental instituído nos primeiros anos de vida. A armadilha do útero materno se repete nestas disfunções e as pessoas – se não procurarem ajuda terapêutica para saírem dessas identificações – correrão o risco de permanecerem em relações disfuncionais por muito tempo, envolvendo os filhos nesta trama conjugal, por não se reconhecem de outra maneira.
O homem “não-fálico”, não-representativo, nada mais é do que um homem castrado emocionalmente. O homem castrado não consegue estabelecer relações funcionais e permanece insistentemente procurando, inconscientemente, uma substituta da figura materna, já que desconhece a função maior que poderia desempenhar numa relação de casal. Muitos casos, em psicoterapia, não avançam nesta direção devido a esta limitação: uma barreira que para muitos se torna intransponível.
Mas qual o “destino” para estes homens “não-fálicos” (sem domínio próprio)? Talvez seja reconhecer seu “estado de falência” para mudar sua “condição”. Ou seja: resgatar sua individualidade para conseguir recuperar o “não-vivido”, a capacidade de tornar-se único e indivisível. Somente assim ele (ou ela) poderia encontrar um outro SER, também único e indivisível… e estabelecer uma relação de troca afetiva, de intimidade, de parceria. Para haver um casal, há de se ter “dois”, ou duas individualidades interagindo entre si. Na simbiose o que vemos é um sendo a extensão do ego do outro. Além disso, também percebemos a eterna insatisfação por permanecerem dentro de relacionamentos fragmentados, divididos, em outros termos: precários.

* Escrito por Patrícia Luiza Prigol.

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