Apego: A algema que nos prende ao outro

Você já sentiu um desejo incontrolável por uma outra pessoa? Mais do que o desejo, na verdade sentiu uma verdadeira dependência emocional do outro. Uma sensação de que o mundo pra você não teria sentido sem aquela pessoa. Essa pessoa pode ser um companheiro, um filho, um amigo, pode até mesmo ser um animal de estimação.

Na verdade, a espécie humana é uma das mais frágeis da natureza. Quando um bebê nasce, precisa de sua mãe de forma quase absoluta para sobreviver. Um filhote de leão, peixe ou lagarto nasce mais preparado para a independência.

Esta necessidade “do outro” não é apenas para as necessidades básicas, tais como a nutrição ou calor. Há também uma profunda necessidade emocional desde o início de nossas vidas: os bebês que não recebem carinho podem adoecer e até mesmo morrer.

É indiscutível que todos temos essa necessidade. Como espécie, precisamos um do outro; definhamos e morremos sem outro ser humano por perto.

No entanto, existe uma grande diferença entre este vínculo instintivo que garante nossa sobrevivência e as dependências neuróticas que desenvolvemos na idade adulta.

Os labirintos do apego

Paradoxalmente, só alcançamos a autonomia quando experimentamos a completa dependência.

“O apego com os nossos cuidadores durante a infância é o suporte para a nossa segurança emocional”.

O mecanismo é simples: se durante a sua infância, você conta com alguém a quem sempre pode recorrer em busca de proteção, irá desenvolver um senso de confiança frente ao mundo e aos seres humanos. Isso permitirá que você alcance a independência em sua vida adulta.

Todos nós precisamos de uma mãe ou de alguém que a substitua durante a nossa infância, mas nem sempre temos essa figura.

Muitas vezes, a mãe trabalha fora e tem que deixar seu filho em uma creche desde muito cedo. Em outras ocasiões, ela está tão ocupada com seus próprios problemas que não tem disposição para estar totalmente presente quando seu bebê precisa; ou tem que cuidar dos outros filhos, mesmo que precisemos dela só para nós.

Algumas mulheres se sentem tão ansiosas com a sua função de mãe que transmitem ao seu filho todas as suas inseguranças, e o protegem como se o mundo fosse uma ameaça constante.

Nesses casos, os filhos crescem com uma sensação de vazio emocional. Ficam muito ansiosos sempre que enfrentam uma nova situação sozinhos, ou quando têm que fazer uma escolha. Então sentem a necessidade de alguém para lhe fazer companhia ou para lhe dizer que escolha fazer.

De forma inconsciente anseiam encontrar uma figura para substituir a mãe que não tiveram, ou que perderam em um determinado momento da vida.

Por isso, tentamos encontrar um parceiro que nos dê tudo, sem esperar nada. Exigimos uma dedicação incondicional e ficamos profundamente frustrados diante de qualquer sinal de indiferença ou distanciamento. Vivemos com medo de perder essa pessoa, porque acreditamos que ela pode preencher nosso vazio interior.

Do apego a autonomia

O apego aos outros é importante e necessário ao longo da nossa vida. Do berço ao túmulo, precisamos dos outros para garantir a nossa saúde física e emocional. Não importa se somos um investidor de sucesso em Nova Iorque ou uma dona de casa na Bolívia. Todos nós precisamos uns dos outros.

O problema surge quando a necessidade se torna ansiedade. Acreditamos que, se nos deixarem sozinhos, voltaremos a ser uma criança indefesa, paralisada diante dos perigos do mundo.

Para superar essa ansiedade, as pessoas podem empregar diferentes estratégias. Uma delas é encontrar uma pessoa que tente cumprir essa promessa impossível: “eu sempre estarei lá, eu nunca vou deixá-lo sozinho”.

Outra possibilidade é optar pelo oposto: evitar a todo custo criar laços de dependência com os outros, de modo que nunca se sinta abandonado.

Também podemos nos tornar desconfiados e excessivamente exigentes. Pedimos às pessoas mais do que elas podem dar. E renegaremos eternamente seus defeitos, falhas e limitações, se elas não conseguirem nos atender como se fôssemos um pequeno ditador, frustrado por não sermos capazes de controlar os outros de acordo com a nossa vontade.

Em todos estes casos, o sofrimento será constante. Sofremos para conservar esse benfeitor que nos “adotou”, seja ele um parceiro, um chefe, um amigo, etc.

Sofremos de solidão por não sermos capazes de estabelecer laços estreitos com os outros. Sofremos por não sermos capazes de valorizar os outros seres humanos como eles são.

Dizem que as frutas são as únicas que amadurecem. Os seres humanos podem ter 30 ou 50 anos e ainda conservam os mesmos medos que tinham quando eram crianças.

Pode ser uma boa ideia refletir sobre esses vazios da infância que nos levam a apegos neuróticos no presente.

É possível que, em algum momento de nossa vida adulta, sejamos capazes de desistir do desejo impossível de encontrar, de uma vez por todas, alguém que se comporte como a mãe ideal que nunca tivemos.

A cura para o apego

A melhor e mais eficiente maneira de vencer o apego é justamente voltar para si. Reconheça a sua importância (que é enorme) pra você e para o mundo. Sinta-se amado por você. Não importa o quanto o mundo possa representar para você, o que importa mesmo é você. Aprenda a se respeitar, a se amar, a se conduzir, a se admirar.

Você não precisa de ninguém para ser alguém !

Deus não seria Deus se criasse o homem para depender do outro para ser uma alma inteira.

Claro que precisamos das pessoas e elas de nós, mas isso não significa que precisemos de uma pessoa ou uma coisa especificamente.

Estamos aqui para conviver, para compartilhar, mas isso é muito diferente de depender, de se colocar como refém de uma pessoa em especial, de depender dela para ser feliz, ou de viver sob o domínio absoluto de crenças, de padrões ou mesmo do passado.

Tome conta de você, pois essa responsabilidade é sua e não do outro.

Aí dentro tem uma pessoa esquecida, tentando chamar sua atenção para ela e desejando ardentemente o seu amor. Essa pessoa é você !

Exercícios para o Desapego

As palavras somente têm poder quando nascem de um coração centrado naquilo que se quer, ou seja, não basta apenas falar, você tem que, primeiramente, sentir essas verdades.

Comece separando um momento pra você todos os dias. Inicie por investigar:

“Em que estou apegado? Ao meu marido? Ao meu namorado? ao meu passado? ao que me aconteceu? ao meu carro? ao filme que acabei de assistir? ao artista? à notícia do jornal?”

Após identificar ao que está apegado, comece a sentir e dizer pra você mesmo:

“Ninguém é de ninguém. Nem mesmo meus filhos são meus.”

“Eu não tenho o direito de querer me apossar de ninguém

“Não preciso de ninguém para me sentir inteiro e suficiente”

“Vim ao mundo sozinho, portanto, sou capaz de estar bem comigo”

“Não devo me apegar a nada que esteja fora de mim e que possa me deixar a qualquer momento”

“Deus é a única fonte que me supre, ninguém mais é. E Ele nunca me abandona, portanto, a Ele eu posso me apegar”

“Nunca me sinto vazio, pois tenho a Deus e a mim”

“Não estou mais sob o domínio do meu passado”

“Eu sou ótimo porque sou dotado de inúmeras capacidades”

“Eu sou inteiro em mim”

“Eu me desapego agora de tudo o que não seja eu”

“Eu diferencio o amar do apegar”

“Eu não cobro nenhum sentimento de ninguém”

“Eu sou eu, o outro é o outro”

“Eu sou eu, o problema é o problema”

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