“Te beijo, te mato, te beijo novamente” – A Dinâmica das Relações Abusivas.

Na pratica clínica, podemos perceber que existe um padrão nos relacionamentos abusivos. Estes relacionamentos são impulsionados pela insegurança, pelo medo e pela instabilidade emocional tanto do abusador como da vítima.

Analises feitas com abusadores revelam que estes se demonstram morbidamente inseguros. Eles demonstram ter pouco sentido de seu próprio valor social e fazem um esforço tremendo para ganhar ou recuperar alguma aparência deste valor através de dominação e controle. O medo que alimenta essa insegurança tem duas frentes: medo de não ser amável e medo de parecer fraco.

O paradoxo aqui é que o agressor, de fato, é fraco, e é por isso que ele abusa em primeiro lugar, para manter um senso de controle. A instabilidade percebida por parte do agressor é porque a vítima não se submete à dominação deste.

A vítima, por sua vez, também é morbidamente insegura, e por razões surpreendentemente semelhantes. Ela também tem pouco sentido do seu valor social, mas, diferentemente do agressor, faz um esforço para estabelecer este valor, perdendo-se de si mesmo diante da necessidade de controle do agressor, submetendo-se a ele. O medo que alimenta essa insegurança também é o de não ser amável, e existe a vontade de aceitar a instabilidade do abusador por causa do ser amado.

A necessidade patológica de controlar do abusador e a necessidade patológica de atenção por parte da vitima é uma combinação perfeita. Uma verdadeira relação psicopatológica. Somos todos seres neuróticos que tendem a buscar a aceitação do outro afim de criar um equilíbrio psicossocial. Relações abusivas são um dos casos mais extremos dessa dinâmica.

Como são, então, os relacionamentos abusivos? Bom, nem sempre o abuso se dá por uma violência física como um tapa no rosto. Existem outras formas de abuso que são tão ou mais comuns que os abusos físicos. Abuso social, abuso emocional, abuso sexual, abuso financeiro, etc.

O abuso é sobre uma dinâmica de extremos de dominação e submissão.

Vejamos o Abuso Social. Você já teve um chefe que o elogia num momento e num momento seguinte te deixa inseguro de que terá um trabalho amanhã? Ou permite que você tenha autonomia para trabalhar sozinho num projeto para depois levar o credito ou dar o credito para outra pessoa? Essa é uma dinâmica abusiva. Seu chefe precisa controlar você porque ele está se sentindo ameaçado ou tem uma sensação de insegurança sobre a sua própria capacidade de motivar ou liderar, e você precisa de um emprego – uma metáfora de ser amada – então aguenta isto e se submete.

O agressor também é conduzido por um sentimento de medo mais sutil e primitivo. Porque muitas vezes é limitado por sua forma de perceber o contexto social e acaba desenvolvendo uma perspectiva egocêntrica da realidade atacando quando não vê outras opções.

A vítima, por outro lado, tende a ser uma anoréxica emocional. Morre de fome ou permite-se ficar faminta e, em seguida, engole o que quer que seja, apenas para se sentir culpada por isto, por causa de uma sensação de não merecer aquilo que recebeu.

Às vezes, para a vítima, há uma sensação de familiaridade e conforto em um relacionamento abusivo, e é por isso que as vitimas muitas vezes retornam a uma relação abusiva ou, deixando uma delas, buscam inconscientemente outra.

Pense na sua infância e adolescência. Havia algo que sua família fazia que era incomum que você acreditou que todas as pessoas faziam aquilo, mas que você ficou, mais tarde, surpreendido ao descobrir que estava enganado? Que aquilo não era comum? É o mesmo – se você é acostumado a reconhecer o amor com dor, então você procurará o amor dessa forma.

Os relacionamentos abusivos são difíceis porque assim como um peixe não sabe que está molhado, muitas vezes não vemos as marcas sutis que carregamos por contra de um relacionamento abusivo, pois estamos mergulhados nele. Além disso, estes relacionamentos atendem, aparentemente, às nossas necessidades emocionais, e quando nossas necessidades estão sendo atendidas, não temos porque questionar este tipo de relação.

Aqui está o ponto central. A responsabilidade das relações abusivas é tanto do abusador como também da vítima. A vitima em vez de apenas, ir lavando a vida, assim como o peixe leva, acostumado a estar molhado, deve analisar conscientemente a natureza de seu relacionamento e estabelecer um limite daquilo que é ou não aceitável. Diferenciar aquilo que a alimenta emocionalmente daquilo que a faz sangrar.

A dificuldade de sair dessa relação se dá, tanto da parte da vítima, como da parte do abusador, da incapacidade de encontrar seu valor e segurança fora dessa relação abusiva. Ambos buscam na relação o que deveriam buscar individualmente.

A falta de segurança e de valor social se dá, em quase todas os casos, de traumas infantis como o desamparo, desamor, rejeição, alienação parental entre outros, e a relação abusiva é uma forma incompetente de encontrar aquilo que foi perdido há muito tempo atrás.

É por isto que a psicoterapia se torna extremamente importante no processo. É através da terapia que tanto a vítima, quanto o abusador, poderão encontrar segurança e valorização do eu. Curar os traumas do passado e viverem livres para amar e serem amados de maneira saudável.

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